terça-feira, 14 de junho de 2011

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas


(...) Algo está mudando nas relações cristalizadas no imaginário coletivo, o comportamento de homens e mulheres está se modificando, provocando conflitos e insegurança como é próprio de toda nova ordem. Os estudos de gênero – masculino e feminino – têm dado contribuição para o conhecimento do ser humano, do mundo em que vivemos e dos valores que regem nossas atitudes e comportamentos. (...) A produção midiática e o modo como ela tem retratado as relações de gênero, haja vista sua (da mídia) significativa influência na aquisição de hábitos e costumes.

Estes estudos (...), como quaisquer outros, só serão significativos se inspirados na utopia compartilhada que faz do homem companheiro do homem.
Portos de Passagem, João Wanderley Geraldi


As representações de gênero na mídia, na literatura e em outros lugares sociais geram reflexões sobre a identidade do sujeito da atualidade. Os conceitos de gênero social e de identidade dividem opiniões, visto que as questões que os envolvem são bastante complexas e não foram vistas, sempre, da mesma forma.

De acordo com Kellner (2001), há uma distinção entre sociedade pré-moderna e moderna. Naquela, os indivíduos não passavam por crises de identidade, que era fixa, sólida e estável. Não havia problemas de papéis sociais, pois estes não estavam sujeitos à reflexão ou discussão. Já nesta – a modernidade –,

a identidade torna-se mais móvel, múltipla, pessoal, reflexiva e sujeita a mudanças e inovações. Apesar disso, também é social e está relacionada com o outro. (...) como se a identidade de uma pessoa dependesse do reconhecimento das outras, em combinação com a validação dada por essa pessoa a esse reconhecimento (p.295).

Apesar disso, as formas de identidade, na modernidade, ainda são relativamente fixas e há papéis bem definidos de mãe, filho, homem, mulher etc. Os limites que fixam tais papéis vão se expandindo no decorrer dos anos e tornam-se um problema a ser pensado e discutido. Tradicionalmente, as pessoas identificavam-se em função do coletivo; na modernidade, o fazem em função da individualidade.

Na era do consumo e do predomínio da mídia, o sujeito tem sido cada vez mais vinculado à produção de uma imagem e a aparência tem sido amplamente valorizada.

Kellner (p. 297) observa que, “para alguns teóricos, a identidade é uma descoberta e a afirmação de uma essência inata que determina o que somos, enquanto para outros a identidade é um construto e uma criação a partir dos papéis e dos materiais sociais disponíveis”. Ele diz, ainda, que é possível haver uma diferença entre a modernidade e a pós-modernidade.

Segundo a perspectiva pós-moderna, à medida que o ritmo, as dimensões e a complexidade das sociedades modernas aumentam, a identidade vai se tornando cada vez mais instável e frágil. Nessa situação, os discursos da pós-modernidade problematizam a própria noção de identidade, afirmando que ela é um mito e uma ilusão (p. 298).

Na pós-modernidade, o sujeito se fragmenta e a cultura da mídia passa a ser o lugar de implosão da identidade. E, ao buscá-la, o sujeito pode mudar, aceitar o novo, transformar-se. Os efeitos dos textos midiáticos são, segundo Kellner, discutidos por alguns teóricos e praticamente ignorados por outros. Enfim, a mídia tem grande poder no cenário atual e tem mostrado que, quem quiser transformar-se em novo, ter sucesso no mundo contemporâneo, deverá dar atenção à imagem, à aparência, à moda.

[...] Conforme Hall (2005, p.21), “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida”. No mundo contemporâneo, do qual a descontinuidade, a fragmentação, a ruptura e os deslocamentos fazem parte, há a pluralização das identidades.

Para Thompson (1998, p.181), “os indivíduos dependem cada vez mais dos próprios recursos para construir uma identidade coerente para si mesmos”. Ao mesmo tempo, o eu (self) constrói-se, hoje, num mudo mediado, alimentado por materiais simbólicos, o que constitui uma especificidade desta Era, em que há um leque de opções disponíveis aos indivíduos. Nesse ambiente, o

desenvolvimento da mídia não somente enriquece e transforma o processo de formação do self, ele também produz um novo tipo de intimidade que não existia antes e que se diferencia em certos aspectos fundamentais das formas de intimidade características da interação face a face (THOMPSON, 1998, p.181).

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