Imagem: Recorte em: http://persivo.blogspot.com/2011
O indivíduo que recebe tantas experiências mediadas em sua rotina diária filtra e seleciona o que lhe interessa. Entretanto, devido ao grande fluxo de informações, muitas vezes, sente-se perdido e, paradoxalmente, solitário na tarefa de encontrar sua identidade. Os homens constroem sua identidade a partir dos materiais simbólicos disponíveis, e o acesso a tais elementos não se dá igualmente a todos.
A discussão de Thomson sobre o self como um projeto simbólico passa pela afirmação de que
o self não é visto nem como produto de um sistema simbólico externo, nem como uma entidade fixa que o indivíduo pode imediatamente e diretamente apanhar; muito mais do que isto, self é um projeto simbólico que o indivíduo constrói ativamente. É um projeto que o indivíduo constrói com os materiais simbólicos que lhe são disponíveis, materiais com que ele vai tecendo uma narrativa coerente da própria identidade. Esta é uma narrativa que vai se modificando com o tempo, à medida que novos materiais, novas experiências vão entrando em cena e gradualmente redefinindo a sua identidade no curso da trajetória de sua vida (p. 183).
O autor mostra que o processo de formação do self está, a cada dia, mais dependente do acesso às formas mediadas de comunicação e, também, das formas como são interpretados os produtos midiáticos. Assim, dizer a nós mesmos e aos outros o que somos é
recontar as narrativas – que são continuamente modificadas neste processo – de como chegamos até onde estamos e para onde estamos indo daqui para a frente. Somos todos biógrafos não oficiais de nós mesmos, pois é somente construindo uma história, por mais vagamente que a façamos, que seremos capazes de dar sentido ao que somos e ao futuro que queremos (p.184).
Outro autor, Giddens (2002, p.157), considerado um filósofo social importante do nosso tempo, comenta que, na sociedade moderna, por ser o eu “frágil, quebradiço, fraturado, fragmentado”, seu projeto reflexivo “é posto em movimento contra um pano de fundo de empobrecimento moral”. Fica difícil estabelecer-se em relação ao mundo exterior e, na busca da auto-realização, pode surgir o narcisismo, problema em crescimento na atualidade.
Enquanto desordem de caráter, o narcisismo é uma preocupação com o eu que impede o indivíduo de estabelecer fronteiras válidas entre o eu e os mundos exteriores. (...) O narcisismo supõe uma procura constante da autoidentidade, mas é uma procura frustrada, porque a busca incansável de ‘quem sou’ é uma expressão de absorção narcisista e não uma procura realizável
(Lasch, apud GIDDENS, 2002, p.158).
A esse respeito, o autor cita Sennet e Christopher Lasch, especialistas no assunto, que sugerem que o narcisismo não deve ser confundido com a ideia leiga da auto-admiração, pois é um desvio de caráter, uma espécie de defesa da auto-identidade diante de um mundo exterior conturbado, que lhe foge ao controle. “As pessoas procuram na vida pessoal o que lhes é negado nas arenas públicas” (p.158), dirigindo-se para um auto-aperfeiçoamento psíquico e corporal.
Um forte colaborador na difusão do narcisismo seria o capitalismo consumidor, que, ao desenvolver a propaganda, padroniza os desejos e anula a individualidade. E o consumo interpela as qualidades de que o narciso gosta: beleza, charme e popularidade.
“Daí que todos nós, nas condições sociais modernas, vivemos como que cercados de espelhos; neles procuramos a aparência de um eu socialmente valorizado, imaculado”
(p.160).
Outro fato ligado ao surgimento do narcisismo dos tempos atuais seria a decadência da família patriarcal (Lasch, apud Giddens, 2002). Em lugar da antiga autoridade dos líderes e sábios tradicionais, do paternalismo, surgiu um culto da especialização, em que há especialistas de todo tipo, que até criam as necessidades que dizem satisfazer. Para sobreviver nesse mundo, cada vez mais padronizado pela mídia, é necessário comportar-se segundo as normas da sociedade de especialistas, dominada pelas aparências.
Giddens, entretanto, critica, em parte, os autores e afirma que, por mais “poderosas que as influências mercantilizantes sejam, dificilmente são recebidas de maneira acrítica pelas populações que afetam” (p.166).
Quanto às questões de gênero social, sabemos que há, na sociedade, um modo de pensar sexista baseado em oposições binárias que têm raízes “num sistema de antagonismos entre forças desiguais e servem para legitimar os privilégios e a dominação dos mais poderosos” (Kellner, 2001, p.84). Neste caso, a dominação ficou com os homens, com seu poder legitimado pela ideologia que não era colocada – ao menos publicamente – em discussão. Daí sua materialização nos discursos sociais, corroborada pelas imagens veiculadas nos meios de comunicação.
A construção do discurso apoia-se em um jogo de imagens, da forma como estabeleceu Michel Pêcheux, a partir de componentes fundamentais presentes em todo texto: o falante, o ouvinte e o referente. Nos processos discursivos, há uma série de formações imaginárias que designam o lugar que os sujeitos destinador e destinatário “se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro” (Gadet e Hak, 1990, p.82), bem como a imagem que fazem do referente, ou seja, do assunto tratado no enunciado. Tais imagens fazem parte das condições de produção do discurso e são levadas em conta, também, no processo de recepção, ou seja, na leitura.
Se admitirmos que o sujeito constrói sua identidade na interação com o outro, o perfil masculino se estabelece na relação com o feminino e com os indivíduos do passado. O discurso sobre o homem é atravessado pelo discurso sobre a mulher, o que remete ao conceito de polifonia, elaborado por Bakhtin. Todos são frutos da mesma formação discursiva, que os marca pelas mesmas regras de formação e remetem a uma mesma formação ideológica. É a formação discursiva que determina o que pode ou deve ser dito em determinado lugar.

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