terça-feira, 14 de junho de 2011

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE IV


A revolução feminina dos anos 1960 conquistou direitos e produziu um discurso (feminista) que colocou as mulheres em destaque e possibilitou-lhes refletir sobre sua condição diante dos homens, os “todo poderosos”. Também obrigou a sociedade a dirigir-lhes um olhar mais atento e menos preconceituoso. As representantes do gênero feminino, hoje, encontraram um ponto de equilíbrio, embora o processo de conquistas ainda esteja ocorrendo. Foram décadas de muita luta para que o discurso que produzem começasse a ser valorizado e os discursos sociais sobre elas tivessem menor carga de preconceito.
Agora, e em decorrência das alterações no universo feminino, chegou a vez de o gênero masculino realizar a sua revolução para se ajustar às evoluções do mundo contemporâneo. São homens com “H” maiúsculo, que lutam pelo direito – dentre outros – de se cuidar, o que inclui fazer as unhas, limpeza de pele, depilação em algumas partes do corpo, hidratação de cabelos, plástica e todas as opções de beleza que, por muito tempo, foram restritas às mulheres. Para encontrar sua identidade (perdida?) os homens precisam manter a virilidade, sem esconder seu lado mais sensível, podendo cuidar da aparência e relacionando-se com as pessoas do seu grupo social de uma nova maneira (Ghilardi-Lucena e Oliveira, 2008).

A mídia expõe as contradições das relações de gênero e revela um paradoxo da modernidade ao incentivar as inovações (homens na cozinha, cuidando dos filhos e do espaço doméstico), por um lado, e ao manter o status quo (homens provedores do lar e frequentadores dos espaços de maior poder), por outro. A construção das identidades de homens e mulheres se manifesta, portanto, no discurso sobre as práticas sociais.
A construção das identidades masculina e feminina firma-se em vista das formações imaginárias materializadas nos discursos que legitimam o poder já instaurado, em uma sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo, em que os homens ocupam os lugares de maior prestígio.
Dentre tantas outras, as transformações pelas quais passam as atribuições dos dois gêneros sociais chegaram, também, à mais típica “obrigação” feminina: cozinhar.
Antigamente, a jovem que se preparava para o casamento deveria saber lidar com os afazeres domésticos: organizar a casa, cuidar da limpeza, coser (preferencialmente) e, sobretudo, cozinhar. O papel do marido era o de prover o lar, e, para isso, trabalhava (fora).
Hoje, após a revolução feminina, em que as mulheres adquiriram sua independência econômica, a realidade é diferente. Nas sociedades ocidentais, homens e mulheres trabalham fora, cuidam dos filhos e, em grande parte dos casais modernos, da casa também. Os novos tempos estão mostrando não somente que as mulheres têm capacidade de fazer frente ao competitivo e exigente mercado de trabalho (Delourenço, 2007), como revelaram que os homens têm dotes culinários e domésticos. Se a cozinha de casa é um espaço feminino, não valorizado socialmente, a profissão de chef de cozinha, hoje disputada no mercado, tem sido, por tradição, destinada aos profissionais masculinos, dos quais se exige cada vez mais qualificação.
Sejam eles cozinheiros amadores ou profissionais, muitos entendem mais do que muitas mulheres quando o assunto é comida. Profissionalmente, eles têm se destacado muito mais do que as mulheres como chefes de cozinha. Por ser um setor de trabalho rentável, em que o sexo masculino está dominando, as mulheres buscam uma posição de igualdade. As tarefas do lar, sem remuneração, continuam desprestigiadas, daí serem incumbência feminina, desde tempos remotos.
Os homens, nas revistas de culinária, em geral, posam ao lado de utensílios caros e de último tipo, utilizam ingredientes raros e de ótima qualidade em suas receitas, descrevem as ações com linguagem própria de grandes gourmets e nomeiam seus pratos de modo a marcar distância das receitas comuns do dia a dia das donas de casa (avós, mães e esposas) do passado. Fazem da cozinha um lugar mágico e valorizado. As imagens que constroem são de profissionais que lidam com algo importante, requintado e de grande responsabilidade. Algo que somente se faz com inteligência e criatividade. São os cozinheiros do futuro.
Visto que o setor gastronômico profissional difere do espaço culinário do cotidiano do lar, com relação aos papéis atribuídos aos gêneros masculino e feminino, consolida-se imagem de que a presença dos homens na cozinha de casa, no espaço cotidiano, é raridade e ainda causa certa estranheza. Por isso o tema é tratado, em alguns produtos midiáticos, com humor. Já no âmbito profissional a presença feminina é vista com olhos de relativa novidade. Ultimamente, os cozinheiros de casa vêm ganhando enorme destaque na antiga arte feminina, ou, pelo menos, adquirindo espaço em um lugar consagrado às mulheres, assim como o fizeram os profissionais de gastronomia masculinos.
A gastronomia arrebata adeptos em todo o planeta e, é claro, no Brasil. As pessoas que participam de grupos para se deleitar com a confecção de pratos exóticos ou as que fazem dessa arte uma profissão mesclam conhecimentos técnicos com sensibilidade (até então coisa feminina) e um toque de audácia para montar pratos de se comer com os olhos, antes de mais nada. É uma área carregada de criatividade, charme e espontaneidade. Há a valorização da originalidade, da criação, assim como dos mais experientes no ramo de trabalho. Apenas os homens “modernos” participam desse rol de profissionais, visto que há uma enorme carga de valores e características consideradas femininas há algum tempo.
Com certa dose de exagero, podemos dizer que foi a ala masculina que elevou a patamares altíssimos a área gastronômica no país. A cozinha da dona de casa tradicional não caminhava para além da porta de casa, dividindo-se, no máximo, com familiares e amigos bem próximos, enquanto os homens a levaram para fora de casa, nos espaços públicos, dando-lhe enorme visibilidade social, pois, segundo Bourdieu (1998, p. 24), “a ação masculina é sempre orientada para o prestígio”. Sabemos que as sociedades ocidentais caminham bem mais rapidamente rumo à igualdade de papeis, em comparação com outros grupos sociais. A “linguagem não só testemunha tal visão do mundo talhada ao longo de séculos e séculos, mas também a espelha e reproduz” (Rajagopalan, apud Ferreira, 2002, p. 13). Daí a importância do estudo das atribuições de cada gênero e das publicações que materializam os valores e a ideologia subjacente nos veículos midiáticos.

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