terça-feira, 14 de junho de 2011

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE III


Assim, a mídia desempenha papel fundamental na produção e na circulação dos sentidos que determinam o modo como os gêneros – feminino e masculino – são vistos pelos indivíduos. As sociedades da “modernidade tardia” (segunda metade do século XX) são, segundo Hall (2005, p.17), ao mencionar Ernest Laclau, caracterizadas pela “diferença” e “atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ – isto é, identidades – para os indivíduos”. Apesar dos antagonismos e das diferenças, tais sociedades não se desintegram, porque seus diferentes elementos e identidades podem ser articulados, embora parcialmente, e a estrutura da identidade permanece aberta. Isso não é negativo, pois os deslocamentos, ao mesmo tempo em que desarticulam as identidades estáveis do passado, abrem “a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos” (p.18) e a recomposição da estrutura social. Nesse ponto, os veículos de comunicação colaboram para as novas articulações ou para a assimilação de novas categorias ao colocar à disposição um rol de exemplos e modelos de comportamento e de atitudes com os quais as pessoas poderão se identificar.
Os sujeitos do discurso midiático incorporam um sistema de referências que constitui um modo de ver o mundo. Há, aí, o que Geraldi (1995, p. 51) coloca como uma ação da própria linguagem, pois “não só a linguagem se constitui pelo trabalho dos sujeitos; também estes se constituem pelo trabalho linguístico, participando de processos interacionais”. Os sistemas de referências, portanto, constituem as – e são constituídos pelas – ações da linguagem.
Há, então, que se refletir sobre os discursos produzidos no contexto das sociedades ocidentais. O impacto da globalização produziu mudanças no mundo, gerando a descontinuidade, a fragmentação, a ruptura e o deslocamento, obrigando a construção de novas identidades. Assim, o que ocorreu, segundo Hall (2005, p.34), com o sujeito moderno, “não foi simplesmente sua degradação, mas seu deslocamento”. O autor comenta que esse deslocamento se dá por meio de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno. Seu principal efeito foi o descentramento do sujeito, para o que ele aponta cinco referenciais, fonte de seus estudos sobre vários pensadores, salientando que nem todos os autores que tratam do assunto concordam com essa colocação. Para cada um dos descentramentos, há um grande autor cujo pensamento marca uma forte mudança na questão da identidade.
Hall (2005, p.36) explica a primeira descentração que vem das tradições do pensamento marxista e foi discutida por Althusser, com “seu ‘anti-humanismo teórico’ (isto é, um modo de pensar oposto às teorias que derivam seu raciocínio de alguma noção de essência universal de Homem, alojada em cada sujeito individual)”, que “teve um impacto considerável sobre muitos ramos do pensamento moderno”.
A segunda descentração, causadora de um profundo impacto no pensamento ocidental do século XX, vem da descoberta do inconsciente por Freud, segundo o qual “nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente” (p.36), o que se opõe ao pensamento anterior, movido por uma lógica da Razão, que pensava em uma identidade fixa e unificada.
O chamado terceiro descentramento relaciona-se ao trabalho de Ferdinand de Saussure, que afirmava que “não somos, em nenhum sentido, os ‘autores’ das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua” e que “os significados das palavras não são fixos”, pois eles surgem “nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua” (p.40). Da mesma forma, Hall cita Derrida, para dizer que o significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). Ele está constantemente escapulindo de nós. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis (p.41).
O quarto descentramento da identidade e do sujeito ocorre no trabalho de Michel Foucault, que produziu uma espécie de “genealogia do sujeito moderno” e destaca um novo tipo de poder das sociedades, das instituições “coletivas”, chamado “poder disciplinar”, que regula e vigia o sujeito. É interessante observar o paradoxo criado nas sociedades modernas, em que, “quanto mais coletiva e organizada a natureza das instituições da modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a individualização do sujeito individual” (p.43).
Finalmente, o quinto descentramento é causado pelo impacto do feminismo, “tanto como uma crítica teórica quanto como um movimento social” (p.44). Foi um momento histórico e revolucionário, que enfraqueceu as organizações da classe política e causou sua fragmentação em vários movimentos sociais, que apelavam para a identidade social de seus sustentadores. Nasce, assim, a “política de identidade” (p.45), em que há uma identidade para cada movimento, como exemplo a dos gays e lésbicas, dos negros, dos pacifistas e outros. O feminismo questionou a clássica distinção entre os opostos: dentro/fora, privado/público. Seu slogan era: “o pessoal é político”. Ele “politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas)” (p.45).

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