terça-feira, 14 de junho de 2011

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE V


Entretanto, nosso olhar sobre a questão do gênero não pode ser ingênuo a ponto de não perceber que, diferentemente da do sexo, é, com certeza, uma questão da forma como cada um de nós se identifica. Ou seja, no fim das contas, o que está em jogo é a questão de identidade, ou melhor, aquilo que se convencionou chamar de ‘política de identidade’. Em se tratando de ato eminentemente político, é preciso verificar não só as expectativas de cada sociedade em relação aos seus membros e as forças coercitivas que imperam em cada cultura, mas também as forças de resistência que são mobilizadas por diferentes grupos e o grau de sucesso que grupos marginalizados têm em seu esforço de auto-afirmação e luta pelo espaço justo (Rajagopalan, apud FERREIRA, 2002, p. 16).

A divisão de papéis sociais entre os gêneros é, ainda hoje, bastante acentuada e, com relação à construção da identidade do sujeito, é claro que, para as camadas da sociedade que leem os textos midiáticos, as representações de gênero são fortemente marcadas, sugerindo normas de comportamento “adequadas” aos homens e mulheres modernos. Aos poucos, as outras camadas da população também adquirem os hábitos já assimilados por aqueles que incorporaram as novidades do mundo moderno. Entretanto, o comportamento dos grupos não é homogêneo e as questões de gênero estão se tornando mais complexas e multifacetadas.
As identidades não estão impressas em nossos genes, mas “pensamos nelas como se fossem parte de nossa natureza essencial” (Hall, 2005, p.47) e elas são “formadas e transformadas no interior da representação” (p.48).
Ressaltamos que a masculinidade revela-se não somente nos homens, como em mulheres, da mesma forma que a feminilidade não é exclusividade das mulheres, pois caracteriza – hoje e em tempos antigos –, também, homens, em maior ou menor grau. A associação homem-masculino e mulher-feminino, no entanto, se faz, quase diretamente, por questões biológicas e culturais, compondo o imaginário coletivo. As discussões que surgem nas análises da produção midiática trazem à tona justamente novas formas em que tal correspondência está se deslocando, na atualidade. Algo está mudando nas relações cristalizadas na mente dos indivíduos, revelando novas possibilidades de aceitação de tais relações. O comportamento de homens e mulheres está se modificando, provocando conflitos e insegurança como é próprio de toda nova ordem. É indiscutível que os papéis sociais de homens e mulheres estão se alterando e o século XXI mostrará atitudes e comportamentos bem diferentes daqueles dos séculos passados. As interrogações sobre o que é ser masculino ou feminino, ser homem ou mulher terão respostas diferentes – se não divergentes – das que propomos agora. Importa debater, refletir sobre o que ocorre à nossa volta, para nos conhecermos melhor, sermos felizes e convivermos bem em sociedade.

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE IV


A revolução feminina dos anos 1960 conquistou direitos e produziu um discurso (feminista) que colocou as mulheres em destaque e possibilitou-lhes refletir sobre sua condição diante dos homens, os “todo poderosos”. Também obrigou a sociedade a dirigir-lhes um olhar mais atento e menos preconceituoso. As representantes do gênero feminino, hoje, encontraram um ponto de equilíbrio, embora o processo de conquistas ainda esteja ocorrendo. Foram décadas de muita luta para que o discurso que produzem começasse a ser valorizado e os discursos sociais sobre elas tivessem menor carga de preconceito.
Agora, e em decorrência das alterações no universo feminino, chegou a vez de o gênero masculino realizar a sua revolução para se ajustar às evoluções do mundo contemporâneo. São homens com “H” maiúsculo, que lutam pelo direito – dentre outros – de se cuidar, o que inclui fazer as unhas, limpeza de pele, depilação em algumas partes do corpo, hidratação de cabelos, plástica e todas as opções de beleza que, por muito tempo, foram restritas às mulheres. Para encontrar sua identidade (perdida?) os homens precisam manter a virilidade, sem esconder seu lado mais sensível, podendo cuidar da aparência e relacionando-se com as pessoas do seu grupo social de uma nova maneira (Ghilardi-Lucena e Oliveira, 2008).

A mídia expõe as contradições das relações de gênero e revela um paradoxo da modernidade ao incentivar as inovações (homens na cozinha, cuidando dos filhos e do espaço doméstico), por um lado, e ao manter o status quo (homens provedores do lar e frequentadores dos espaços de maior poder), por outro. A construção das identidades de homens e mulheres se manifesta, portanto, no discurso sobre as práticas sociais.
A construção das identidades masculina e feminina firma-se em vista das formações imaginárias materializadas nos discursos que legitimam o poder já instaurado, em uma sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo, em que os homens ocupam os lugares de maior prestígio.
Dentre tantas outras, as transformações pelas quais passam as atribuições dos dois gêneros sociais chegaram, também, à mais típica “obrigação” feminina: cozinhar.
Antigamente, a jovem que se preparava para o casamento deveria saber lidar com os afazeres domésticos: organizar a casa, cuidar da limpeza, coser (preferencialmente) e, sobretudo, cozinhar. O papel do marido era o de prover o lar, e, para isso, trabalhava (fora).
Hoje, após a revolução feminina, em que as mulheres adquiriram sua independência econômica, a realidade é diferente. Nas sociedades ocidentais, homens e mulheres trabalham fora, cuidam dos filhos e, em grande parte dos casais modernos, da casa também. Os novos tempos estão mostrando não somente que as mulheres têm capacidade de fazer frente ao competitivo e exigente mercado de trabalho (Delourenço, 2007), como revelaram que os homens têm dotes culinários e domésticos. Se a cozinha de casa é um espaço feminino, não valorizado socialmente, a profissão de chef de cozinha, hoje disputada no mercado, tem sido, por tradição, destinada aos profissionais masculinos, dos quais se exige cada vez mais qualificação.
Sejam eles cozinheiros amadores ou profissionais, muitos entendem mais do que muitas mulheres quando o assunto é comida. Profissionalmente, eles têm se destacado muito mais do que as mulheres como chefes de cozinha. Por ser um setor de trabalho rentável, em que o sexo masculino está dominando, as mulheres buscam uma posição de igualdade. As tarefas do lar, sem remuneração, continuam desprestigiadas, daí serem incumbência feminina, desde tempos remotos.
Os homens, nas revistas de culinária, em geral, posam ao lado de utensílios caros e de último tipo, utilizam ingredientes raros e de ótima qualidade em suas receitas, descrevem as ações com linguagem própria de grandes gourmets e nomeiam seus pratos de modo a marcar distância das receitas comuns do dia a dia das donas de casa (avós, mães e esposas) do passado. Fazem da cozinha um lugar mágico e valorizado. As imagens que constroem são de profissionais que lidam com algo importante, requintado e de grande responsabilidade. Algo que somente se faz com inteligência e criatividade. São os cozinheiros do futuro.
Visto que o setor gastronômico profissional difere do espaço culinário do cotidiano do lar, com relação aos papéis atribuídos aos gêneros masculino e feminino, consolida-se imagem de que a presença dos homens na cozinha de casa, no espaço cotidiano, é raridade e ainda causa certa estranheza. Por isso o tema é tratado, em alguns produtos midiáticos, com humor. Já no âmbito profissional a presença feminina é vista com olhos de relativa novidade. Ultimamente, os cozinheiros de casa vêm ganhando enorme destaque na antiga arte feminina, ou, pelo menos, adquirindo espaço em um lugar consagrado às mulheres, assim como o fizeram os profissionais de gastronomia masculinos.
A gastronomia arrebata adeptos em todo o planeta e, é claro, no Brasil. As pessoas que participam de grupos para se deleitar com a confecção de pratos exóticos ou as que fazem dessa arte uma profissão mesclam conhecimentos técnicos com sensibilidade (até então coisa feminina) e um toque de audácia para montar pratos de se comer com os olhos, antes de mais nada. É uma área carregada de criatividade, charme e espontaneidade. Há a valorização da originalidade, da criação, assim como dos mais experientes no ramo de trabalho. Apenas os homens “modernos” participam desse rol de profissionais, visto que há uma enorme carga de valores e características consideradas femininas há algum tempo.
Com certa dose de exagero, podemos dizer que foi a ala masculina que elevou a patamares altíssimos a área gastronômica no país. A cozinha da dona de casa tradicional não caminhava para além da porta de casa, dividindo-se, no máximo, com familiares e amigos bem próximos, enquanto os homens a levaram para fora de casa, nos espaços públicos, dando-lhe enorme visibilidade social, pois, segundo Bourdieu (1998, p. 24), “a ação masculina é sempre orientada para o prestígio”. Sabemos que as sociedades ocidentais caminham bem mais rapidamente rumo à igualdade de papeis, em comparação com outros grupos sociais. A “linguagem não só testemunha tal visão do mundo talhada ao longo de séculos e séculos, mas também a espelha e reproduz” (Rajagopalan, apud Ferreira, 2002, p. 13). Daí a importância do estudo das atribuições de cada gênero e das publicações que materializam os valores e a ideologia subjacente nos veículos midiáticos.

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE III


Assim, a mídia desempenha papel fundamental na produção e na circulação dos sentidos que determinam o modo como os gêneros – feminino e masculino – são vistos pelos indivíduos. As sociedades da “modernidade tardia” (segunda metade do século XX) são, segundo Hall (2005, p.17), ao mencionar Ernest Laclau, caracterizadas pela “diferença” e “atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ – isto é, identidades – para os indivíduos”. Apesar dos antagonismos e das diferenças, tais sociedades não se desintegram, porque seus diferentes elementos e identidades podem ser articulados, embora parcialmente, e a estrutura da identidade permanece aberta. Isso não é negativo, pois os deslocamentos, ao mesmo tempo em que desarticulam as identidades estáveis do passado, abrem “a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos” (p.18) e a recomposição da estrutura social. Nesse ponto, os veículos de comunicação colaboram para as novas articulações ou para a assimilação de novas categorias ao colocar à disposição um rol de exemplos e modelos de comportamento e de atitudes com os quais as pessoas poderão se identificar.
Os sujeitos do discurso midiático incorporam um sistema de referências que constitui um modo de ver o mundo. Há, aí, o que Geraldi (1995, p. 51) coloca como uma ação da própria linguagem, pois “não só a linguagem se constitui pelo trabalho dos sujeitos; também estes se constituem pelo trabalho linguístico, participando de processos interacionais”. Os sistemas de referências, portanto, constituem as – e são constituídos pelas – ações da linguagem.
Há, então, que se refletir sobre os discursos produzidos no contexto das sociedades ocidentais. O impacto da globalização produziu mudanças no mundo, gerando a descontinuidade, a fragmentação, a ruptura e o deslocamento, obrigando a construção de novas identidades. Assim, o que ocorreu, segundo Hall (2005, p.34), com o sujeito moderno, “não foi simplesmente sua degradação, mas seu deslocamento”. O autor comenta que esse deslocamento se dá por meio de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno. Seu principal efeito foi o descentramento do sujeito, para o que ele aponta cinco referenciais, fonte de seus estudos sobre vários pensadores, salientando que nem todos os autores que tratam do assunto concordam com essa colocação. Para cada um dos descentramentos, há um grande autor cujo pensamento marca uma forte mudança na questão da identidade.
Hall (2005, p.36) explica a primeira descentração que vem das tradições do pensamento marxista e foi discutida por Althusser, com “seu ‘anti-humanismo teórico’ (isto é, um modo de pensar oposto às teorias que derivam seu raciocínio de alguma noção de essência universal de Homem, alojada em cada sujeito individual)”, que “teve um impacto considerável sobre muitos ramos do pensamento moderno”.
A segunda descentração, causadora de um profundo impacto no pensamento ocidental do século XX, vem da descoberta do inconsciente por Freud, segundo o qual “nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente” (p.36), o que se opõe ao pensamento anterior, movido por uma lógica da Razão, que pensava em uma identidade fixa e unificada.
O chamado terceiro descentramento relaciona-se ao trabalho de Ferdinand de Saussure, que afirmava que “não somos, em nenhum sentido, os ‘autores’ das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua” e que “os significados das palavras não são fixos”, pois eles surgem “nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua” (p.40). Da mesma forma, Hall cita Derrida, para dizer que o significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). Ele está constantemente escapulindo de nós. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis (p.41).
O quarto descentramento da identidade e do sujeito ocorre no trabalho de Michel Foucault, que produziu uma espécie de “genealogia do sujeito moderno” e destaca um novo tipo de poder das sociedades, das instituições “coletivas”, chamado “poder disciplinar”, que regula e vigia o sujeito. É interessante observar o paradoxo criado nas sociedades modernas, em que, “quanto mais coletiva e organizada a natureza das instituições da modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a individualização do sujeito individual” (p.43).
Finalmente, o quinto descentramento é causado pelo impacto do feminismo, “tanto como uma crítica teórica quanto como um movimento social” (p.44). Foi um momento histórico e revolucionário, que enfraqueceu as organizações da classe política e causou sua fragmentação em vários movimentos sociais, que apelavam para a identidade social de seus sustentadores. Nasce, assim, a “política de identidade” (p.45), em que há uma identidade para cada movimento, como exemplo a dos gays e lésbicas, dos negros, dos pacifistas e outros. O feminismo questionou a clássica distinção entre os opostos: dentro/fora, privado/público. Seu slogan era: “o pessoal é político”. Ele “politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas)” (p.45).

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas - PARTE II

 Imagem: Recorte em: http://persivo.blogspot.com/2011

O indivíduo que recebe tantas experiências mediadas em sua rotina diária filtra e seleciona o que lhe interessa. Entretanto, devido ao grande fluxo de informações, muitas vezes, sente-se perdido e, paradoxalmente, solitário na tarefa de encontrar sua identidade. Os homens constroem sua identidade a partir dos materiais simbólicos disponíveis, e o acesso a tais elementos não se dá igualmente a todos.
A discussão de Thomson sobre o self como um projeto simbólico passa pela afirmação de que

o self não é visto nem como produto de um sistema simbólico externo, nem como uma entidade fixa que o indivíduo pode imediatamente e diretamente apanhar; muito mais do que isto, self é um projeto simbólico que o indivíduo constrói ativamente. É um projeto que o indivíduo constrói com os materiais simbólicos que lhe são disponíveis, materiais com que ele vai tecendo uma narrativa coerente da própria identidade. Esta é uma narrativa que vai se modificando com o tempo, à medida que novos materiais, novas experiências vão entrando em cena e gradualmente redefinindo a sua identidade no curso da trajetória de sua vida (p. 183).

O autor mostra que o processo de formação do self está, a cada dia, mais dependente do acesso às formas mediadas de comunicação e, também, das formas como  são interpretados os produtos midiáticos. Assim, dizer a nós mesmos e aos outros o que somos é

recontar as narrativas – que são continuamente modificadas neste processo – de como chegamos até onde estamos e para onde estamos indo daqui para a frente. Somos todos biógrafos não oficiais de nós mesmos, pois é somente construindo uma história, por mais vagamente que a façamos, que seremos capazes de dar sentido ao que somos e ao futuro que queremos (p.184).

Outro autor, Giddens (2002, p.157), considerado um filósofo social importante do nosso tempo, comenta que, na sociedade moderna, por ser o eu “frágil, quebradiço, fraturado, fragmentado”, seu projeto reflexivo “é posto em movimento contra um pano de fundo de empobrecimento moral”. Fica difícil estabelecer-se em relação ao mundo exterior e, na busca da auto-realização, pode surgir o narcisismo, problema em crescimento na atualidade.

Enquanto desordem de caráter, o narcisismo é uma preocupação com o eu que impede o indivíduo de estabelecer fronteiras válidas entre o eu e os mundos exteriores. (...) O narcisismo supõe uma procura constante da autoidentidade, mas é uma procura frustrada, porque a busca incansável de ‘quem sou’ é uma expressão de absorção narcisista e não uma procura realizável
(Lasch, apud GIDDENS, 2002, p.158).

A esse respeito, o autor cita Sennet e Christopher Lasch, especialistas no assunto, que sugerem que o narcisismo não deve ser confundido com a ideia leiga da auto-admiração, pois é um desvio de caráter, uma espécie de defesa da auto-identidade diante de um mundo exterior conturbado, que lhe foge ao controle. “As pessoas procuram na vida pessoal o que lhes é negado nas arenas públicas” (p.158), dirigindo-se para um auto-aperfeiçoamento psíquico e corporal.
Um forte colaborador na difusão do narcisismo seria o capitalismo consumidor, que, ao desenvolver a propaganda, padroniza os desejos e anula a individualidade. E o consumo interpela as qualidades de que o narciso gosta: beleza, charme e popularidade.
“Daí que todos nós, nas condições sociais modernas, vivemos como que cercados de espelhos; neles procuramos a aparência de um eu socialmente valorizado, imaculado”
(p.160).
Outro fato ligado ao surgimento do narcisismo dos tempos atuais seria a decadência da família patriarcal (Lasch, apud Giddens, 2002). Em lugar da antiga autoridade dos líderes e sábios tradicionais, do paternalismo, surgiu um culto da especialização, em que há especialistas de todo tipo, que até criam as necessidades que dizem satisfazer. Para sobreviver nesse mundo, cada vez mais padronizado pela mídia, é necessário comportar-se segundo as normas da sociedade de especialistas, dominada pelas aparências.
Giddens, entretanto, critica, em parte, os autores e afirma que, por mais “poderosas que as influências mercantilizantes sejam, dificilmente são recebidas de maneira acrítica pelas populações que afetam” (p.166).
Quanto às questões de gênero social, sabemos que há, na sociedade, um modo de pensar sexista baseado em oposições binárias que têm raízes “num sistema de antagonismos entre forças desiguais e servem para legitimar os privilégios e a dominação dos mais poderosos” (Kellner, 2001, p.84). Neste caso, a dominação ficou com os homens, com seu poder legitimado pela ideologia que não era colocada – ao menos publicamente – em discussão. Daí sua materialização nos discursos sociais, corroborada pelas imagens veiculadas nos meios de comunicação.
A construção do discurso apoia-se em um jogo de imagens, da forma como estabeleceu Michel Pêcheux, a partir de componentes fundamentais presentes em todo texto: o falante, o ouvinte e o referente. Nos processos discursivos, há uma série de formações imaginárias que designam o lugar que os sujeitos destinador e destinatário “se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro” (Gadet e Hak, 1990, p.82), bem como a imagem que fazem do referente, ou seja, do assunto tratado no enunciado. Tais imagens fazem parte das condições de produção do discurso e são levadas em conta, também, no processo de recepção, ou seja, na leitura.
Se admitirmos que o sujeito constrói sua identidade na interação com o outro, o perfil masculino se estabelece na relação com o feminino e com os indivíduos do passado. O discurso sobre o homem é atravessado pelo discurso sobre a mulher, o que remete ao conceito de polifonia, elaborado por Bakhtin. Todos são frutos da mesma formação discursiva, que os marca pelas mesmas regras de formação e remetem a uma mesma formação ideológica. É a formação discursiva que determina o que pode ou deve ser dito em determinado lugar.

REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO SOCIAL NA MÍDIA - Maria Inês GHILARDI-LUCENA - PUC-Campinas


(...) Algo está mudando nas relações cristalizadas no imaginário coletivo, o comportamento de homens e mulheres está se modificando, provocando conflitos e insegurança como é próprio de toda nova ordem. Os estudos de gênero – masculino e feminino – têm dado contribuição para o conhecimento do ser humano, do mundo em que vivemos e dos valores que regem nossas atitudes e comportamentos. (...) A produção midiática e o modo como ela tem retratado as relações de gênero, haja vista sua (da mídia) significativa influência na aquisição de hábitos e costumes.

Estes estudos (...), como quaisquer outros, só serão significativos se inspirados na utopia compartilhada que faz do homem companheiro do homem.
Portos de Passagem, João Wanderley Geraldi


As representações de gênero na mídia, na literatura e em outros lugares sociais geram reflexões sobre a identidade do sujeito da atualidade. Os conceitos de gênero social e de identidade dividem opiniões, visto que as questões que os envolvem são bastante complexas e não foram vistas, sempre, da mesma forma.

De acordo com Kellner (2001), há uma distinção entre sociedade pré-moderna e moderna. Naquela, os indivíduos não passavam por crises de identidade, que era fixa, sólida e estável. Não havia problemas de papéis sociais, pois estes não estavam sujeitos à reflexão ou discussão. Já nesta – a modernidade –,

a identidade torna-se mais móvel, múltipla, pessoal, reflexiva e sujeita a mudanças e inovações. Apesar disso, também é social e está relacionada com o outro. (...) como se a identidade de uma pessoa dependesse do reconhecimento das outras, em combinação com a validação dada por essa pessoa a esse reconhecimento (p.295).

Apesar disso, as formas de identidade, na modernidade, ainda são relativamente fixas e há papéis bem definidos de mãe, filho, homem, mulher etc. Os limites que fixam tais papéis vão se expandindo no decorrer dos anos e tornam-se um problema a ser pensado e discutido. Tradicionalmente, as pessoas identificavam-se em função do coletivo; na modernidade, o fazem em função da individualidade.

Na era do consumo e do predomínio da mídia, o sujeito tem sido cada vez mais vinculado à produção de uma imagem e a aparência tem sido amplamente valorizada.

Kellner (p. 297) observa que, “para alguns teóricos, a identidade é uma descoberta e a afirmação de uma essência inata que determina o que somos, enquanto para outros a identidade é um construto e uma criação a partir dos papéis e dos materiais sociais disponíveis”. Ele diz, ainda, que é possível haver uma diferença entre a modernidade e a pós-modernidade.

Segundo a perspectiva pós-moderna, à medida que o ritmo, as dimensões e a complexidade das sociedades modernas aumentam, a identidade vai se tornando cada vez mais instável e frágil. Nessa situação, os discursos da pós-modernidade problematizam a própria noção de identidade, afirmando que ela é um mito e uma ilusão (p. 298).

Na pós-modernidade, o sujeito se fragmenta e a cultura da mídia passa a ser o lugar de implosão da identidade. E, ao buscá-la, o sujeito pode mudar, aceitar o novo, transformar-se. Os efeitos dos textos midiáticos são, segundo Kellner, discutidos por alguns teóricos e praticamente ignorados por outros. Enfim, a mídia tem grande poder no cenário atual e tem mostrado que, quem quiser transformar-se em novo, ter sucesso no mundo contemporâneo, deverá dar atenção à imagem, à aparência, à moda.

[...] Conforme Hall (2005, p.21), “a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida”. No mundo contemporâneo, do qual a descontinuidade, a fragmentação, a ruptura e os deslocamentos fazem parte, há a pluralização das identidades.

Para Thompson (1998, p.181), “os indivíduos dependem cada vez mais dos próprios recursos para construir uma identidade coerente para si mesmos”. Ao mesmo tempo, o eu (self) constrói-se, hoje, num mudo mediado, alimentado por materiais simbólicos, o que constitui uma especificidade desta Era, em que há um leque de opções disponíveis aos indivíduos. Nesse ambiente, o

desenvolvimento da mídia não somente enriquece e transforma o processo de formação do self, ele também produz um novo tipo de intimidade que não existia antes e que se diferencia em certos aspectos fundamentais das formas de intimidade características da interação face a face (THOMPSON, 1998, p.181).

Seminário - Parte II

Imegm: Recorte em: http://flogvip.net

O que o ser humano perdeu ao limitar e restringir o conhecimento ao acesso de poucos, é algo que não há como quantificar.
Nós queremos desesperadamente nos encaixar, mas somos a única espécie capaz de odiar a um outro membro de mesma espécie, sendo que este não interfere em nossa sobrevivência.
Excluímos e julgamos pessoas por serem de etnias diferentes, de lugares diferentes, de gênero diferentes, de opções sexuais diferentes e até mesmo, características corporais, opiniões, religião, estilo, ideias e ideologias diferentes.
O que conseguimos com isso é muito mais do que perca intelectual, com isso restringimos nosso conhecimento acerca de determinados assuntos, nos limitamos a uma “história única” e nos julgamos melhores por sermos diferentes.

  

Alimentados por nossa busca de poder incessante, nos tornamos nossos próprios algozes, ou como diria Hobbes, “O homem é o lobo do homem.” Inconscientes e mergulhados em nossa avareza, esquecemos de quem mora do nosso lado, na cidade vizinha ou até mesmo em outro continente. Esquecemos de que, como disse Edward Lorenz “Um simples bater de asas de uma borboleta pode gerar um tufão do outro lado do mundo.” E assim, não medimos nossos atos nem suas consequências para o mundo e a população mundial. Há tanta comida, mas há tanta fome. Há tanta água, mas há tanta sede. Há muita esperança... Mas há, principalmente, egoísmo.

Carl Sagan disse em seu livro, Bilhões e bilhões:

"Nenhuma espécie tem garantido o seu lugar neste planeta. E estamos aqui há apenas 1 milhão de anos, nós, a primeira espécie que projetou os meios para a sua autodestruição. Somos raros e preciosos porque estamos vivos, porque podemos pensar dentro de nossas possibilidades. Temos o privilégio de influenciar e talvez controlar o nosso futuro. Acredito que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra - não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós. Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos."

Porém, nos relutamos a lutar, relutamo-nos a pensar de modo diferente, nos fechamos em nosso pequeno mundo particular em que fingimos uma suposta felicidade. Fechamos nossos olhos para os problemas que se mostram claros ao nosso redor, e nos fechamos interiormente, com medo que isso nos afete e tire nossa paz.

Fingimos esquecer a responsabilidade que temos. A responsabilidade de nossos atos, de nosso voto, de nossa voz e opinião. E cegos, seguimos, ignorando um passado de luta, luta essa de muitas vozes oprimidas e silenciadas, de muitos braços castigados duramente, de muitas vidas que se entregaram em prol de um futuro que hoje, negligenciamos.

Ignoramos o compromisso que temos com o mundo, com a nação, com nossos filhos e netos e com cada ser vivo que herdará a terra que hoje controlamos.

 
Terra essa em que utilizamos e exploramos de todos os seus meios como se isso não tivesse consequências, como se isso não afetasse na minha vida, na sua vida, e na vida de todas as pessoas no mundo. Os efeitos e danos de nossos atos inconsequentes serão sentidos em um amanhã que é hoje, em um futuro que já desponta com os raios do sol de nosso amanhecer. O grito do mundo já começou, algumas pessoas apenas não querem ouvi-lo. Outras poucas, estão se esforçando, dia após dia, para cumprir com sua parte, mesmo que isoladamente pequena, ao todo faz diferença sim. E o que você tem feito?

Ou como tantos outros, você também está fingindo que não vê o mundo que se despedaça ao seu redor?

Ou como tantos outros, você afoga o vazio existencial em mais e mais compras, agindo de modo infantil e irresponsável, deixando-se controlar por uma série de informações que lhe são empurradas, em que os valores se perderam e o mais importante não é mais fundamentar sua moral e conhecimento, mas sim possuir cada vez mais e mais bens materiais.

Controle esse que você não apenas aceita, como permite que sites tenham acesso às suas informações, para saber o que realmente devem vender e oferecer para você, e então, você mesmo permite que isso se torne tão grande ao ponto de negar companhia e presença reais por conversas virtuais. O mundo era para ser assim?

Era para sermos seis bilhões de pessoas sozinhas? Seis bilhões deprimidas, suicidas, dependentes de remédios para se produzir uma falsa sensação de felicidade e conforto?

Nos tornamos marionetes porque é assim que queremos ser. Possuímos acesso às mais diversas informações, mas não é assim no mundo todo. Existem rígidas censuras, que apenas transformam as pessoas ainda mais em bonecos do sistema.

Assim, em uma sociedade manipulada e manipuladora, controlada e controladora, vítima e vilã de si mesma, resta-nos então, saber exercer nosso senso crítico, nosso dever de cidadãos, e agir da maneira que melhor julgarmos. Não permitir que passem-nos para trás, que calem nossa voz, que corrompam nossa moral e nos privem de nossos próprios direitos. Nós seres humanos racionais (ou nem tanto assim) temos o poder de mudar ao nosso redor como nenhuma outra criatura, temos o poder da vontade, temos a força. Basta saber olhar além, buscar mais, lutar pela coletividade e pela sobrevivência do mundo. Temos a chance de fazer tudo dar certo, se quisermos, pois somos as mais nefastas e as mais benévolas, as mais poderosas e as mais dependentes, as mais terríveis e as mais belas criaturas viventes, e como diria a Morte no romance “A Menina Que Roubava Livros”, “os seres humanos me assombram.”

"Quem, de três milênios, não é capaz de se dar conta, vive na escuridão, na sombra, à merce dos dias, do tempo." Johaan Goethe 

http://www.huckleberryfineart.com/artist_slide_show.php?image_id=240363&artist_id=2527&category_id=56

Referências

www.portalliteral.com.br
www.veja.abril.com.br
www.taliaoggi.com
www.flanelapaulista.com.br
www.sissicafesociety.com.uk
www.quiprona.wordpess.com
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http://flogvip.net
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http://www.remusicas.org
http://foradocontrole.tumblr.com
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http://weheartit.com/entry/9370200
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http://blogs.jovempan.uol.com.br
http://livearth.blogspot.com
http://belamidia.blogspot.com
http://ateoriadetudo.blogspot.com
http://www.desabafos.net/?p=143
http://cyberdiet.terra.com.br
http://brumadamanha.blogspot.com
http://yoyo-sah.blogspot.com
http://www.paragonfineart.com
Vídeo “Dance, Monkeys, Dance!” Ernest Cline

Seminário

Imagem: Recorte em: http://flogvip.net/

A ciência moderna foi esculpida, como um mármore ainda em pedra por estudiosos brilhantes que viveram principalmente na primeira metade do século XVI. Esse mármore foi sendo trabalhado e virou escultura, uma arte.  
A qual inspirou em uma série de novas artes, assim como temos atualmente as nossas ciências que são inúmeras dentre as suas divisões. 
Uma parcela pequena de pessoas moldou essa ciência mas será que as mentes brilhantes se situam apenas numa restrita parcela de homens brancos e de poder aquisitivo? 
Existiu um domínio de pequenos grupos que conseguiram difundir o ideário da ciência. E a difusão ocorreu entre esse restrito grupo ao qual todo o conhecimento foi direcionado, e que podemos chamar de ‘’Proprietários do Saber’’, que limitavam a esfera da sabedoria para exatamente quem se adequasse aos perfis acima citados. Talvez se julgassem superiores e únicos capazes de entender, absorver e direcionar o conhecimento. 
Quem esteve fora do âmbito desse tentou reivindicar seu direito ao conhecimento e também espaço,  e a história nos mostra que os finais felizes são poucos. As mentes brilhantes existem independente de qualquer adjetivo externo, o que lhes faltaram foram oportunidades. 
Um exemplo de brilho fora do paradigma de intelectuais que esculpiram a ciência. 
Christine de Pizan nasceu em Veneza em 1364 e morreu em Poissy, cidade francesa em 1430. Foi filósofa e escritora, suas obras abordam inúmeros assuntos, que vão da política às paixões humanas. 
Principais Obras:  Lettre à Isabeau de Bavière – manifesto de voz às mulheres 
                        - Le Livre de Paix – tratado que diz a forma correta de se educar um príncipe, no princípio de honestidade 
Cito aqui outro exemplo de mente brilhante excluída pela sociedade de sua época. 
Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis, em 1861 e morreu em 1898. Filho de escravos alforriados foi um dos precursores do simbolismo no Brasil, apesar de livre recebeu a tutela do seu ex-senhor e também uma educação refinada. 
Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna - cidade catarinense - pelo fato de ser negro. E embora quase metade da população brasileira seja não-branca, poucos foram os escritores negros, mulatos ou indígenas. 
Os trabalhos daqueles que não se enquadravam na tradição branca, masculina e nobre não foram difundidos por uma questão cultural que restringe seres humanos a especificações – raça, gênero, ideologia , posição política e afins-. 
A humanidade perdeu supostos talentos brilhos, devido a esse processo restrito. Tomemos por exemplo além dos excluídos, a quantidade de livros queimados na idade média, moderna e contemporânea devido à intolerância a novos estudos, povos e ao medo de ter sua superioridade abalada.  
O Paradigma ciência é também o de exclusão, de intolerância, opressão que destinou a humanidade para a autodestruição. 

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